Espirais

 Todo dia dentro da minha cabeça eu vejo uma espiral de palavras. Desde o fatídico dia que eu fui atropelado ela aparece ao menos uma vez, seja na mais brilhante hora do dia ou mais longínqua madrugada. Ela sempre começa com a frase "Não foi nada disso que eu quis dizer" e vai girando e girando, com esse começo de frase sendo a base pra uma variação diária de inseguranças e medos tontos.

"Não foi nada disso que eu quis dizer" foi o jeito que a minha doente e paranoica cabecinha encontrou de desenvolver longos trechos de diálogos comigo mesma sobre não conseguir explicar direito nada do que eu sinto. Uma vez uma amiga querida me disse que as vezes você não precisa falar pros outros nem explicar o que você está sentindo, afinal, só os chatos não disfarçam. Tal afirmação me deixou em absoluto choque: sempre acreditei que o monte de pensamentos que ficam acendendo de um em um no breu da nossa cabeça tinha que sair de algum jeito e ir pra algum lugar. Bem, não foi nada disso que eu quis dizer.

"Não foi nada disso que eu quis dizer" foram as palavras que eu disse pra mim mesmo fingindo não estar tolamente apaixonado. Todos meus sentimentos agudos começam no preciso momento em que eu tive a audácia de perguntar pra mim mesma "será que isso que eu estou sentindo é um sentimento realmente meu?". Um amor não correspondente me disse uma vez, após eu destrinnchar minhas emoções em sua frente como um corpo baconiano, inchando e explodindo e se recompondo em sua frente, que o carinho que tinha apresentado era apenas um jeito de defletir minha admiração e vontade de ser ela. Isso, de tantas coisas que me disseram com palavras e tantas outras que me disseram com uma justa abstinência das mesmas, foi uma das coisas mais chocantes que já ouvi. Só consegui ver minha confissão, tanto laboriada e refinada no decorrer de um longo ano e girando eternamente no umbral da madrugada do dia anterior, voltando para o mesmo ponto de todas as outras, não foi nada disso que eu quis dizer. 

"Não foi nada disso que eu quis dizer" foi exatamente o que eu pensei depois de tanto procurar as palavras certas naquela infinita espiral para explicar o porque de eu não conseguir mais me abrir com alguém que amei profundamente. Encontrei uma barreira enorme entre tudo aquilo que alguém me mostrou e tudo aquilo que eu acreditei que a pessoa realmente era e o que de fato ela veio a ser. Me vi, depois de tanto tempo fingindo pra mim mesmo que não via que ser uma nota de rodapé na vida de outro alguém será sempre doloroso, pois você passa a carregar informação de paratexto, um pequeno adendo, tão tangencial e en passant que o autor decidiu nem tentar incluir aquele dado ou trecho na narrativa ou texto principal. Em todo o rio com margens carregadas de plantas e bichos e terra sacolas de lixo e irretocáveis jorros de água, você torna-se um chiclete grudado no chão, duas ruas antes do rio começar de fato, um objeto que, mesmo presente, é tão periférico a ponto de nem ser cogitado como parte da paisagem. Essa metáfora foi um desastre tão grande quanto foi o fim do relacionamento aqui metaforado, não foi nada disso que eu quis dizer.

"Não foi nada disso que eu quis dizer" é o que tenho pensado toda vez que eu deixo de dizer pra ela que acredito que posso estar me apaixonando pelo que ela me mostra. Meu maior medo é dizer tudo aquilo que penso e sinto, carinho e proximidades passarinhescos, que voam de norte a sul com seus outros eus, parte de um eu maior e criam ninhos aquecidos para esquentar e proteger seus eus pequenos, e ao dizer perceber que estou dizendo tudo aquilo pra mim mesmo, pra alguém que eu inventei pra mim e que não se reconheceu nesse retrato. Meu grande medo é afastar essa pessoa que tem me feito tanto bem com todo esse medo e paranóia. Eu não tenho certeza se foi isso que eu quis dizer, mas provavelmente não foi.


Comentários